
O livro “Páginas Recebidas” foi publicado em 1899, escrito pelo maior e melhor escritor brasileiro. Nele existe o conto “O Caso da Vara” no qual Machado escreve uma incoerência muito comum nas atitudes humanas.
Neste conto o altruísmo passa longe, torna-se claro o egoísmo do protagonista porque depois de implorar por uma ajuda e consegui-la, no mesmo momento deixa de ajudar uma menina que levaria uma surra, bastaria sua interferência para que isto não acontecesse. O pior é que ele havia prometido a si mesmo que iria ajudá-la pois indiretamente foi o responsável por este castigo.
É simplesmente espetacular como Machado de Assis consegue transmitir as emoções interferindo sensivelmente nos leitores. Escreve com tanta sutileza que o leitor se envolve completamente vivenciando as cenas com os personagens.
Para quem ainda não leu o conto “O Caso da Vara”, não sabe exatamente o que estou dizendo, portanto deixo aqui um resuminho:
Machado de Assis conta a história de um rapaz chamado Damião que tinha sido internado em um seminário pelo pai e então ele percebendo que não tinha nenhuma vocação para padre, acabou fugindo do estabelecimento.
Não sabendo para onde ir, pois não poderia voltar para casa pois o seu pai com certeza o levaria de volta, procurou a casa de Sinhá Rita, uma conhecida da família.
Sinhá Rita vivia de ensinar meninas a fazer bordados e rendas. Ela tinha uma vara usada especialmente para castigar aquelas que não conseguissem produzir o exigido durante o dia.
Com muitas súplicas Damião consegue fazer com que Sinhá Rita tome suas dores e resolve ajudá-lo.
Já um pouco restituído do desespero Damião conta algumas anedotas e isto interferiu no atraso da tarefa de Lucrecia, uma das meninas.
Damião vendo que Sinhá Rita a advertia mostrando-lhe a vara, assumiu consigo mesmo que iria defendê-la caso ela não conseguisse alcançar a produção.
No final do dia Lucrecia foi à única que não havia terminado a tarefa, então Sinhá Rita como sempre agia nestes casos, segurou-a fortemente para lhe bater, porém nesta hora não achava a vara, quando a viu ela estava perto do Damião.
A Lucrecia chorava e implorava para não apanhar: - Nhanhã, nhanhã! Pelo amor de Deus!
Sinhá Rita estava irredutível e pediu para o Damião que lhe passasse a vara.
Ao invés dele interferir em defesa da menina como havia prometido a si mesmo, dizer algo em sua defesa, pois havia acabado de ser beneficiado por uma benevolência, simplesmente pegou a vara e a entregou para Sinhá Rita.
Núdios Clen – Escritor Mineiro
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